Poucos discos nos últimos anos me fizeram sentir tanto prazer em ouvir música como este. Do começo ao fim, é um arsenal de ritmos e melodias classudas, bateria alta com muito Soul/Funk e R&B, com um prisma do pop contemporâneo. O álbum é uma viagem de volta aos anos 60, mas precisamente dentro dos estúdios da gravadora Motown que revelou grandes nomes da música black como Marvie Gaye, Diana Ross, Stevie Wonder, Michael Jackson entre outros.
Tendo os vocais de Bruno Mars moldados na soul music e versátil para o pop, e Anderson Paak tendo uma abordagem mais no rap e freestyle quando é necessário, ou seja, quando a canção pede. A dupla exala carisma, personalidade, swing e todo o romantismo debochado que você puder imaginar.
A parceria entre a dupla teve seu início em 2017, quando Paak (trazendo seu último trabalho “Malibu”) abria os shows da turnê 24K do Bruno Mars. Que inclusive é o seu melhor disco em questão de sonoridade, traz R&B/Soul e muito funk e pop. O cantor já vinha flertando com essa sonoridade no seu segundo disco “Unorthodox Jukebox”, de 2012. Mas é a partir do terceiro disco que Mars parece resgatar a sonoridade do passado com um verniz do pop atual e se descola de fazer apenas um pop comum como tantos outros por aí, para ter uma sonoridade própria resgatando o “verdadeiro Funk” com muita Soul Music, R&B e influências como o grande artista James Brown.
É aqui que chegamos nesse “discasso”, o “An Evening With Silk Sonic”, de 2021. Na primeira música “Silk Sonic Intro” traz um feeling que te convida a entrar nas faixas seguintes pela voz do convidado do disco Boosty Collins, um dos grandes nomes da história do funk (Parliament-Funkadelic), logo temos o principal single do álbum “Leave The Door Open”. Com um toque de Marvie Gaye e os vocais suaves do Bruno Mars, a canção desliza sobre o instrumental de forma romântica na medida certa. Já em “Fly As Me” o Funk toma conta da faixa pela voz de Anderson Paak, tendo um estilo vocal voltado para o rap, mas de uma forma malandra junto a uma arrogância deliciosa. “After Last Night” é uma balada mais lenta com backing vocals que vão ganhando força em toda a canção assim como os vocais sedutores de Mars.
A canção “Smokin out the Windows” é umas das minhas favoritas do disco! Ela tem um jogo de vocais entre Mars e Paak excelentes, que conversam com o instrumental com levadas simples, mas muito bem colocadas que se alinham com a letra, que conta a história de uma paixão que deu errado. Na faixa “Put On a Smile” temos Mars e Paak desolados. Com suas vozes carregadas de melancolia e o sentimento de perda de um amor que não vai acontecer, desaguando em uma melodia que enaltece mais ainda essa sensação. Já em “777” temos instrumentais com protagonismo e refrãos potentes, para sair dançando onde você estiver.
Na parte final do disco, temos “Skate” que mostra a sintonia cativante e ensolarada que têm Mars e Paak, deslizando entre melodias e ritmos. O nome “Love Train” já diz tudo, a canção te leva em um trem rítmico cadenciado e aconchegante. Essa viagem pelo disco é uma das melhores coisas que você ouvirá nos últimos anos. E fechando com a “Brast Off” temos um duo de vocais suaves com uma atmosfera mística, diminuído pouco a pouco a melodia flutuante que tem.
Fica claro que os dois parecem estar se divertindo faixa após faixa. Algumas com um toque retrô, outras mais românticas e sensuais, felizes e radiantes, ora com humor e deboche e tudo isso chegando a um ponto excelente de criatividade e um instrumental absurdo de qualidade e swing. Assim como Mars e Paak, o álbum em si não esconde as suas influências ou procura ser algo inovador, mas tem a sua originalidade muito sólida e autêntica. Se você leu até aqui percebeu que fiz muitas citações de nomes como referências e dos anos 60 e 70 da soul music. Espero ter despertado em você a curiosidade em procurar sobre qualquer um e as sonoridades que criaram. Para mim, já vai ter valido a pena ter feito esse texto.