Ney Matogrosso “É Inclassificável”

Trazendo o nome que leva o disco e o grande artista que é, Ney Matogrosso é inclassificável. O cantor sempre traz essa imprevisibilidade artística, e mais uma vez indo na contramão. Só que, dessa vez, trago o álbum Inclassificáveis, lá de 2008, ano de lançamento do CD. Sendo o meu primeiro contato com um álbum completo do artista foi este, a capa por si só já me chamou a atenção e toda a sua performance vocal quase que palpável, é digno de aplausos, ouça todas as faixas que compõe o disco e você entenderá, para ficar mais claro o que digo, recomendo assistir ao DVD ao vivo (Inclassificáveis) gravado no canecão (RJ), em 2008. Abaixo vou deixar vídeos de trechos da apresentação.

Um dos pilares do conceito que o álbum teria como força motriz, foi Ney Matogrosso que, espertamente trouxe Emilio Carrera ex-membro do Secos e Molhados para ter uma identidade e sonoridade voltada ao performático e teatral, com arranjos mais pesados no sentido mais pop e um rock suingado. Trazendo uma banda escolhida a dedo, Felipe Roseno (Percussão), DJ Tubarão (Percussão e Pick- Ups), Emilio Carrera (Piano Acústico e Teclados), Sérgio Machado (Bateria), Carlinhos Noronha (Baixo e Violão), Júnior Meirelles (Guitarra, Violões e Vocais).

O repertório é um dos grandes acertos, por mesclar em trazer novos nomes de compositores como Dan Nakagawa na canção “Um Pouco de Calor” sendo umas minhas favoritas dentro das canções escolhidas, tendo uma poesia lírica muito bela, ainda mais na voz do cantor. Outras da sua carreira “Mal Necessário” que é do fim dos anos 70, em que Ney nunca mais havia cantado, traz arranjos mais encorpados. Em “Mente, Mente” temos todo o lado mais sensual através de sua voz que beira o afrodisíaco. Na faixa seguinte “Lema” traz em sua letra um contexto que podia muito bem ser para os dias atuais, tem como visão um amadurecer e envelhecer com dignidade, ou seja, viver e desfrutar todas as fases que a vida permitir, sendo um contraste do que ocorre hoje, nessa incessantemente busca pela fórmula da juventude eterna através de cirurgias e filtros de redes sociais. 

No lado B, algumas canções ganham mais a minha atenção, a “Existem Coisas Na Vida” dos autores Alzira Espíndola e Itamar Assumpção que na interpretação de Ney ganha mais força e significado, trazendo nas letras experiências e a complexidade da vida e toda a sua imprevisibilidade. Você deve ter percebido que até agora, trouxe apenas autores menos conhecidos pelo público em geral, mas não menos qualificados. Mas isso se complementa com o outro lado do álbum, o dos grandes nomes da música brasileira, exemplo disso é a faixa “Ode aos Ratos” que descarrega melodias e vocais mais ácidos e incisivos, dos compositores Edu Lobo e Chico Buarque.

A canção que leva o nome do disco “Inclassificáveis” de Arnaldo Antunes (ex-titãs) tem Ney mostrando o que ele sempre se considerou, um artista inquieto, transgressor aos tempos, tendo independência artística, e sempre de peito aberto e coragem em expor toda a sua arte musical no palco de forma substanciosa e significativa. Depois de toda essa performance vocal e instrumental, o álbum fecha com “Divino Maravilhoso” de Caetano Veloso e Gilberto Gil trazida a pleno pulmões por Ney Matogrosso e banda mostrando toda a resistência e força aos tempos em que vivemos.

Temos aqui, um artista que buscou no repertório uma mistura de autores novos e parcerias de grandes nomes já consagrados, lembrando que o disco tem 16 faixas, mas quis destacar as que mais me chamaram a atenção. Tendo uma banda de apoio afiada sabendo colocar arranjos precisos e encorpados que engrandecem mais ainda a voz de Ney Matogrosso. E espero que você ouça do início ao fim para entender toda essa performance teatral que o cantor tem, e como Ney Matogrosso é um dos artistas mais importantes na construção da música popular Brasileira em todos os tempos. 

Compartilhe:

Facebook
LinkedIn
Email
X

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *