Já escutou alguma música ou disco que faz fusão do rap a ritmos tradicionais nordestinos? Ou melhor, que conecta o “repente” (poético musical de improviso em versos, muito característico da cultura nordestina), à cultura do hip-hop? Se não, tenho algo para você conhecer e escutar várias vezes. Com letras muito engenhosas trazendo uma mistura de poesia com canto declamado, falando sobre a cultura e a realidade do nordeste, trago aqui, o disco Fita Embolada do Engenho – Na Boca do Povo, de 2010, do rapper e produtor musical cearense RAPadura Xique-chico, ou, como ele mesmo gosta de se definir, um “repentista”.
Para você entender um pouco de onde vem toda essa musicalidade que falei acima: o cantor é nascido em Fortaleza, no Ceará. Ganhou o apelido “RAPadura” quando criança, devido ao seu doce preferido. Ainda jovem teve contato com a música nordestina e aos 13 anos se mudou com a família para o Distrito Federal, onde conheceu o Hip-hop. Sacou de onde vem essa mistura musical trazida para as músicas?
Voltando ao álbum, onde despeja toda essa bagagem de vida, é importante trazer que ele produziu praticamente tudo sozinho, desde as batidas, letras e os back vocals.
Tendo 8 faixas, quero destacar como essa mistura musical funcionou, usando o “repente” com ritmos como coco, maracatu e o forró, junto aos beats do Hip Hop. Com um canto falado em rimas bem contundentes na linguagem poética, a canção “E Doce mais Não E Mole” valoriza a cultura nordestina de forma muito aguerrida e orgulhosa de onde vem.“Minha cultura é cantada, é dançada, é prosa falada, arada e cultivada, amada e eternizada. Faço como antigamente, alegro o carnaubal, se for pela minha gente arrasto a pexeira o punhal”. Aperte o play abaixo para você entender o que estou falando.
Nos 35 minutos de álbum, você vai sentir e ouvir camadas nas letras e ritmos que passam por temas mais urbanos, críticas sociais, identidade regional e o descaso do governo com a região. Se você prestar atenção, ouvirá samples de canções do Luiz Gonzaga (Rei do Baião) e Marinês (Rainha do Xaxado). O que enriquece todo o trabalho original do rapper que busca homenagear os artistas de sua terra.
RAPadura traz nas músicas letras e batidas com espaço para a reflexão, protesto e orgulho de onde é. Com um talento criativo nas composições, raciocínio rápido para improvisar e trazer nas canções a cultura regional, o rapper tem garra e coragem em produzir de forma independente sem abrir mão da sua identidade musical. Trago esse disco para mostrar para quem diz “não se faz música como antigamente”. Se faz sim, e está por aí, basta procurar. Tem muita gente talentosa por esse Brasil!
Boa audição!